ônibus Lotado

Mais um fim de mês se aproxima e a perturbadora impaciência por não conseguir produzir nestas linhas uma verdadeira crônica – texto mais livre, desestruturado, solto das amarras factuais… – me faz buscar um real motivo de tal resistência diante deste aparelho frio e mecânico: o computador.

Não, não quero justificar, nas modestas linhas do presente texto, alguma ausência estilística. Isso talvez seja uma tentativa desesperada de ultrapassar os fios condutores de um texto noticioso para uma observação de mais acurada sensibilidade diante das personagens e de um espaço finalizador, um terminal.

Tal qual os enfermos em hospitais que liberam forças inexplicáveis diante dos últimos suspiros, lanço o meu olhar perscrutador a esse ambiente pulsante, cheio de vidas, de histórias, de movimento. Um espaço adequado para aventuras textuais mais soltas, com riquezas a serem exploradas, com observações mais detalhadas…

Nenhum aviso verbal prévio precisa indicar a que parada chegamos. Todos têm que descer, como uma lei imposta, a parada final. O calçamento calejado e os passos apressados anunciam mais uma prova do dia: a correria para a placa sinalizadora da fila de espera. E o que ganham aqueles que conseguem alcançar os primeiros lugares? Bem, a certeza de um assento garantido no veículo que está por vir.

O novo desafio, então, é a espera, muito mais longa que se imagina. Os olhares cansativos tornam-se evidências da previsão de ônibus lotados. E, quem aparece pela primeira vez, se assusta com os ruídos extravagantes, denunciando plataformas abarrotadas de pessoas e veículos, que brincam de ciranda, dando voltas em torno de seu eixo.

Os sons que transmitem expressões de mentes, muitas vezes exaustas, contribuem para a composição do lugar: uma mistura de vozes, motores e movimento. Um processo rítmico, nada sincrônico e muito, muito mecanicista. Máquinas que cospem gente e as engole de volta. Um desce e sobe, um traz e leva. Tudo assim, como a crônica, “desestruturada”.

O mapa esquemático só orienta e organiza os mais atentos e, como em uma ação investigativa, se descobre em qual plataforma está a segunda ou terceira etapa da viagem.

O desejo de chegar ao destino traçado faz com que esses inúmeros rostos e histórias deixem vestígios, durante a escala ou ponte terrestre em um dos terminais de nossa grande Fortaleza. Não que se tenha a pretensão de fazer paralelos com o portão de embarque e desembarque de passageiros aéreos, mesmo porque seria uma comparação infeliz e injusta. Mas o fato de se constituir um espaço de integração de transportes e de passageiros nos faz sentirmos em local desconhecido, cheio de “estrangeiros”, levando e trazendo milhares, percorrendo todos os cantos da cidade.

No entanto, o relógio apressado do terminal não pára. Uma, duas, sete anotações, e os fiscais verificam as horas para chegada do ônibus de uma linha específica. Tudo confirmado. Pronto!

A organização e segurança também ficam por conta de fiscais, mas esses possuem outra qualificação, são autoridades de polícia e, ao menor murmúrio de uma bomba caseira ou manifesto de injustiça, eles devem garantir a tranqüilidade dessa agitação diária.

O estresse se confirma como agente característico do ambiente. Talvez por isso, a falta de sensibilidade, os gritos, o empurra-empurra nas filas, o menosprezo pela educação. As pisadelas e os beliscões aqui, não retratam o sentido metafórico utilizado por Manuel Antônio de Almeida ao descrever ações, certa vez, de suas personagens em narrativa; mas que comprovam, literalmente, a sofrível trajetória dos passageiros reais que ocupam, nada menos de duas ou três vezes mais, a capacidade permitida de um veículo para os solavancos da estrada.

E neste ponto de parada, após uma contemplação mais geral que específica, concluo, em linhas que seguem para um destino incerto, minha viagem textual. Crônica ou não, a deficiência em trilhar pelos caminhos libertos talvez esteja em sua fase terminal, talvez…